Rede de descanso Denaná

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Árvores de Redes

O link abaixo refere-se a um texto de autoria da grande escritora romancista Ana Miranda, publicado no jornal O Povo, de Fortaleza, domingo, 18 de dezembro. Ana Miranda fala das árvores natalinas montadas com redes de descanso em espaços públicos da cidade e também já comentadas neste blog. Confiram.

Árvores de redes | Coluna Ana Miranda | O POVO Online

terça-feira, 6 de setembro de 2011

História da Rede - Final


Câmara Cascudo dedica a parte final do livro Rede de Dormir à reprodução das muitas contribuições que recebeu oriundas de demais intelectuais, entre eles, médicos, poetas, historiadores. Aliás, o autor revela em "Nota" dever a Assis Chateaubriand, jornalista e empresário dos mais influentes do Brasil entre os anos 1940 a 1960, ter escrito a obra. Olegário Mariano, Adelmar Tavares, Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queiroz e tantos outros estão na Antologia de Rede de Dormir.  Hoje, portanto, escolhemos encerrar a série sobre a obra de Câmara Cascudo com a reprodução de pequenas partes do ensaio de autoria do médico A. da Silva Mello, intitulado "O uso da rede, do berço e da cadeira de balanço e as suas vantagens" e com data de setembro de 1957, Rio de Janeiro.
"(...) Acusam-na de contra-indicada para o repouso por ser curva e dar posição artificial ao corpo dormente, esquecidos dos sertanejos fortes que envelhecem sadios e dentro das redes. Sertanejos e caraíbas e tupis, os mais valentes indígenas do continente".
"A posição curvada tomada pelo corpo na rede, que pode ser julgada anormal ou prejudicial, deve impor-se antes como ideal para o repouso, pois corresponde à do feto no útero, a qual igualmente muitos animais e mesmo o homem quase sempre tomam para dormir. (...)".
"A posição do corpo na rede é tão natural, tão fisiológica, tão favorável que as vezes se pode revelar de utilidade mesmo em determinados casos de moléstia".
"Diversos autores referem-se ao prazer que é obtido pelo movimento rítmico de balançar, sem dúvida a razão de ser desse móvel que por toda a parte teve tanta aceitação. (...)".
"Não há dúvida que descobertas e hábitos desse gênero merecem atenção, pois representam conquistas instintivas, certamente úteis ou necessárias, mas que vamos menosprezando, tanto devido às condições modernas da existência, quanto à falta de conhecimentos mais profundos da questão. (...)".
"(...) A nossa rede, uma das invenções mais felizes do homem primitivo, entra nesse conjunto, talvez servindo para nos fazer compreender melhor certas tendências naturais do nosso povo".
Assim concluímos o passeio pela obra de Câmara Cascudo, Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

História da Rede, cap. 10

O capítulo final de Rede de Dormir Câmara Cascudo dedica a falar da invenção do mosquiteiro. Utilitário essencial naqueles tempos, quando era comum passar as noites florestas e matas a dentro. No entanto...
"Os indígenas litorâneos, mais conhecidos dos colonizadores, aliados e vítimas, não tinham mosquiteiros. Dormiam em redes ('inis'), com um pequenino fogo aceso, aquecendo e afugentando os inimigos noturnos, insetos e fantasmas.
(...)
"Creio, até prova em contrário, que o mosquiteiro é elemento alienígena, trazido pelo europeu que, há milênios, o conhecia. O mosquiteiro, acidentalmente usado pelo ameríndio, desde a primeira metade do século XVI, resulta de construção imitada pelo modelo improvisado ante seus olhos pelo homem branco. Tanto não se integrou o mosquiteiro na vida indígena que este o adotou, comprando-o, séculos depois, com o dinheiro ganho na exploração da borracha. Em caso contrário fabricá-lo-ia natural, logicamente, como fazia e ainda faz com todos os objetos necessário ao seu relativo conforto, rede de dormir, vasos para bebidas, ornamentos, armas, etc.
Certo é que o mosquiteiro não é muito popular na Europa. Nunca o deparei em Portugal, na Espanha, no sul da França e nas regiões das lagunas italianas onde há (ou havia) tanto mosquito zumbidor. Mas o conhecimento é bem velho e o registro antiquíssimo.
Heródoto, Euterpe, XVC, descreve o mosquiteiro no Egito no quinto século antes de Cristo. Para livrar-se do mosquito o egípcio recorria às redes finas, impenetráveis aos insetos. (...)".
Com essa discussão Câmara Cascudo encerra a narrativa do capítulo final de Rede de Dormir. No próximo e último post, um destaque da antologia apresentada pelo autor.
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

História da Rede - Cap. 9



No capítulo 9 de Rede de Dormir, Câmara Cascudo dedica-se a falar sobre a economia da rede à época. Seguem dados:
"Segundo o Serviço Nacional de Recenseamento funcionavam, em 1950, 296 fábricas de redes de dormir, todas no Nordeste e Norte do Brasil.
Dez dividiam-se entre Pará, Amapá e Maranhão, resultados omitidos a fim de evitar individualização de informações, e as restantes 286 pelos Estados seguintes:
Ceará.............................. 63
Rio Grande do Norte ........ 42
Paraíba .......................... 89
Pernambuco ................... 09
Alagoas ......................... 68
Sergipe .......................... 15
(...) O número das fábricas clandestinas, pequenos grupos de artesanato, é imprevisível e não há Estado nordestino sem uma boa dezena destes núcleos fiéis ao trabalho antigo, feito em casa. São Paulo já não mais possui fábricas de redes mas as redeiras existem, trabalhando teimosamente e com pequeninos e certos mercados consumidores".
No próximo post continuaremos com o capítulo 10, o último, do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 8 Cont.

Continuamos hoje ainda com o capítulo 8 do livro Rede de Dormir, de Câmara Cascudo. Entre tantas curiosidades segue mais uma:
"O tamanho das varandas, com as fímbrias orladas de borlinhas, 'bonecas da varanda', figurava como honraria. As redes de escravos, as redes pobres, não tinham varandas. As redes comuns, compradas nas feiras, fabricadas comumente, tinham varandas curtas. Uma alta distinção, anúncio de poderio, era ver-se alguém em rede branca, com as varandas quase arrastando no solo. Como as redes eram feitas sob encomenda unicamente para as pessoas 'graduadas' vinham varandas compridas. Essas varandas podiam, ocasionalmente, servir de coberta. Puxando-as, o dono da rede cobria-se, a toda extensão do corpo, com elas, como um toalhado de rendas.
(...)
Ainda nos dias presentes há uma maioria alta de redes no quarto de dormir ao lado da cama bonitona. Serve para o 'primeiro sono'. Para 'refrescar'. Para 'descansar'. Depois vão fazer companhia à mulher. E muitos voltam para a rede, para 'acabar o sono'".
No próximo post continuaremos com o capítulo 9, penúltimo, do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 8

Uma série de curiosidades e bizarrices Câmara Cascudo deixou registrada no capítulo 8 do livro Rede de Dormir. São inúmeras e interessantes que tal capítulo renderá mais de um post. Começamos pelos primeiros "designers" de modelos de rede, os engenheiros da Inspetoria Federal de Obras contra as Secas. Vejam:
"Quando as redes eram feitas, unidade por unidade, e não em séries, mecanicamente, estavam todas dentro de moldes fiéis às conveniências tradicionais. Os tipos tinham seus destinos, previstos, antecipados, sabidos. Eram quase sempre 'redes de encomenda' e obedeciam aos modelos inalteráveis nas dimensões e cores. Azul, encarnado, amarelo, verde eram as tonalidades preferidas, evitando-se as que sugerissem tristeza, viuvez, luto, morte, o lilás, o roxo, o negro, para os lavores e bordados ornamentais.
As redes em branco e negro tiveram mercado depois de 1889. O comum, antigamente no Nordeste, era a rede branca como a mais vistosa e digna dos ricos pelo aspecto imaculado, exigindo cuidados e desvelos na conservação.
As redes de cor não eram as mais caras e nem as melhores (...). Ficavam nas residências medíocres e menos prestigiosas. (...) As redes brancas eram as tradicionais da aristocracia rural, com varandas varrendo o chão. (...)".
(...) "Um elemento modificador, de bordados, dimensões e cores, foi a Inspetoria Federal de Obras contra a Seca pelos seus engenheiros e pessoal de escritório, de chapéu de cortiça, polainas e óculos. Encomendando muita rede para levar (curiosidade do sertão) para os amigos sulistas, sugeriam e impunham gostos pessoais que eram cegamente satisfeitos. Assim nasceram varandas de recortes irregulares, desenhos berrantes, mistura de cores (...). Quando se ouvia o engenheiro anunciar o 'mandei fazer uma rede', sabia-se que as modificações participariam da encomenda porque 'ficava mais bonito'. E estas modificações ficaram como feições decorativas normais".
A foto acima publicada no livro é acompanhada da legenda: "Sesteando em varanda paulista".
No próximo post continuaremos ainda com o capítulo 8 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 6

Capítulo 6. Câmara Cascudo narra sobre uma discussão sem fim, como ele próprio definiu. A origem da hamaca está entre o Caraíba ou Aruaque?
"Max Schmidt e Erland Nordenskiold afirmaram pertencer à cultura aruaque o tear de madeira que os cronistas coloniais encontraram funcionando na América, na maioria do tempo e do espaço. Este tear foi decisivo para a divulgação da rede de dormir no Brasil e na América do Sul.
Caracterizar o Aruaque como tendo feito as redes com as fibras das palmeiras e dos cipós era forma de entregar-lhe a inicial da indústria porque o ciclo da utilização algodoeira é bem posterior.
É óbvio que o Caraíba, apesar da fama de criador de hamaca, recebeu-a da mulher aruaque, fiandeira e tecedeira por tradição ininterrupta. Se a cerâmica era um dos seus títulos de glória, ainda Krickeberg informa que foram eles nos bosques tropicais os 'grandes mestres em cerâmica e cesteria, assim como na arte de fiar e tecer'".
No próximo post continuaremos com o capítulo 7 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 5

No presente capítulo, Câmara Cascudo descreve em seu livro Rede de Dormir como a rede penetra na Europa. Feito graças, segundo o autor, não unicamente através dos colonizadores de Espanha e Portugal, mas também pelos navegadores franceses. "A navegação francesa para o Brasil começara maravilhosamente cedo". Confira o que mais relata Cascudo.
"Os navios de comércio franceses teriam sido os divulgadores da excelência da rede de dormir substituindo os enxergões  ásperos e contrários ao clima nas longas estadias. As redes armadas facilmente no convés ou nas cobertas nos tempos chuvosos constituíra solução de conforto e utilização de espaço a bordo. Os trugimões normandos, habituados com as inis, tinham a comunicabilidade da experiência própria. Cômoda, higiênica, prontamente renovável, a rede impunha-se sobre os enxergões e catres ardentes e mau-cheirosos.
Inicialmente a rede levada nos navios da França recebeu batismo  francês e este foi o branle, oscilação,  bamboleio, vaivém, balanço, imagem fiel do movimento daquele leito suspenso, empurrado por qualquer vento. Branle é, evidentemente, o nome arcaico da rede de dormir nos primeiros tempos de sua aclimatação francesa. Resistiu, porém, vencendo afinal o termo caraíba ou aruaco, hamaca, dando o francês hamac, tornando-se amaca (italiano), hammock (inglês). Os alemães preferiram descrever o objeto, dizendo-o hangematte, de hanger, suspenso, e matte, esteira, como os holandeses, hangmat, hangmak, hamgemach.
Os marinheiros franceses determinaram o uso que se espalhou para as demais marinhas. Era uma moda de França que dominava pela sua comodidade funcional para as longas viagens, defesa da ardência tropical, facilidade de acomodação e manejo".
Na foto acima, reproduzida do livro, registro de "redeira sorocabana tecendo no antigo tear". 
No próximo post seguiremos com o capítulo 6 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 4

Necessidade lírica e o ato de dormir são temas refletidos por Câmara Cascudo no capítulo 4 do livro Rede de Dormir. Eis trecho que escreveu a cerca do dormir, seja em cama ou rede.
"Dormir é viajar. Fica o corpo abandonado à sua imobilidade trágica, passível à qualquer inimigo e sem a defesa da matilha dos sentidos que desertaram também. O 'espírito' animador dos movimentos desapareceu e como não pode morrer, jornadeia para longe, vendo paisagem e cenas, irrecordáveis ao despertar. A posição do corpo, dos braços e da cabeça anunciam sistemas preventivos de afastamento das forças adversas e dos males invisíveis, somente anunciáveis pelo vago diagnóstico dos sonhos".
No próximo post seguiremos com o capítulo 5 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 3

Após traçar um histórico do uso da rede de dormir no continente americano nos dois capítulos iniciais do livro Rede de Dormir, Câmara Cascudo dedica o terceiro capítulo a considerações a respeito da impossibilidade de se fazer certas afirmações nos domínios etnográficos e da antropologia cultural. "Tenho saudades do tempo em que era natural colocar-se um letreiro em cima de cada coisa, historiando-lhe o nascimento".
Assim ele lança incertezas diante da forma como se deu o povoamento do continente americano e da existência da rede fora desses limites. "Fora da terra ameraba não deparei a rede de dormir, exceto no registro de uma enciclopédia, a Treccani, indicando uma única área além do Novo Mundo onde, de fibra entrelaçada, existiria a hamaca. E foi justamente na Nova Guiné (...)".
"Sabemos que o português levou a rede para a sua Índia no século XVI e o inglês nos finais do século XVIII. China, Japão, Coreia tiveram a rede como transporte pela mão do português furamundo (...)". "(...) Não temos documentação para dizer que a rede existisse na Nova Guiné senão no século XIX (...)".
De volta ao início
"Por que e como impôs-se a fórmula da hamaca, da rede de dormir?", questiona Cascudo. E ele completa mais a frente: "A ideia poderá ter nascido dos balanços lúdicos nas lianas da mata e ocasionais descansos gostosos num breve sentamento nos cipós curvos que laçavam árvores próximas".
Por outro lado, segundo o autor, no "seculo XVI as redes antigas e recentes eram, como atualmente, todas usadas e comumente feitas. (...) Fácil é cortejar as redes das gravuras de Hans Staden e Jean de Lery, de tecedura semicompacta, com a grade vegetal de fibras rudemente entrelaçadas que documenta a alegoria de Stradanus (1590) 'Vespúcio descobridor da América'".
No próximo post seguiremos com o capítulo 4 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 2

No capítulo 2 de Rede de Dormir, Câmara Cascudo discorre sobre a geografia da rede. "A rede derramava-se no século XVI em diante pelas grandes e pequenas Antilhas e do Panamá atual até as Guianas". Já no Pacífico, encontrava-se na Colômbia e Peru. Para o norte, o México foi a região de menor conquista. Na região espanhola, Haiti e Santo Domingo, as redes eram as camas indígenas. Quando entra no território do Atlântico, Câmara Cascudo afirma que a rede era "senhora e dona dos sonos". No Brasil ela acompanha o Tupi-Guarani.
Cronistas brasileiros registraram seu uso por toda parte da costa e sua penetração diária nos costumes dos colonos brancos. "A difusão da rede parece ter devido orientação e interesse aos Tupi-Guaranis, especialmente porque estes empregaram preferencialmente o algodão. A rede de algodão é quase uma característica do Tupi e como ele e o Cariri foram os grandes povoadores do interior nordestino, haverá a preparação inicial para o uso da rede entre as populações sertanejas que nasceram ou depois foram fixadas naquelas regiões".
A rede nas colonizações
Cascudo escreve: "Na hamaca dormiram conquistadores e missionários, aventureiros famintos e cruéis, os viajantes e naturalistas dos séculos XVIII e XIX".
"Os espanhóis começaram a devastar o interior, continental e insular, e com eles a indiada acompanhante, levando hamacas e que assim foram sendo popularizadas onde ninguém antes sabia de sua existência gostosa. Semelhantemente operaram os portugueses com seus aliados, as cunhãs carregando a rede, a ini inestimável, Brasil a dentro, subindo e descendo as regiões que olhamos embevecidos nos mapas coloridos".
No próximo post seguiremos com o capítulo 3 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

História da Rede - Cap. 1

No capítulo 1, de Rede de Dormir, Luís da Câmara Cascudo discorre sobre os primeiros registros relacionados ao objeto à época do descobrimento do Brasil e como ela era usada nas diferentes regiões no país durante o período colonial e imperial. Segue trechos do livro:
"Quem primeiro denominou a hamaca sul-americana de rede foi Pero Vaz de Caminha e temos a data exata da denominação: segunda-feira, 27 de abril de 1500. É o padrinho da rede de dormir". (...) "É o primeiro registro em língua portuguesa: `uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam`. Batizou-a pela semelhança das malhas com a rede de pescar".
"Não perguntara aos donos da casa que nome havia. Impôs-lhe alcunha portuguesa", diz Cascudo, explicando que entre os índios o objeto era designado "maca". "(...) o habitante das florestas tropicais sul-americanas quem inventou a maca (rede), que também em francês e inglês ainda hoje é designada com a palavra nu-aruaque amáka". Trecho extraído de Karl Von Den Steinen, em "Entre os Aborígenes do Brasil Central", citado por Cascudo.
Principal utensílio
"As redes de tecido compacto foram técnica das mulheres portuguesas. A vinda dos teares aperfeiçoou a rede, ampliando-a, enfeitando-a, dando-lhe as franjas, varandas, tornando-a mais macia, confortável, ornamental". Câmara Cascudo cita Jorge Marcgrav que viveu de 1638 a 1644 no Nordeste brasileiro: "Os utensílios caseiros dos brasileiros são muito poucos, de maneira que, quando mudam de domicílios ou saem peregrinando, a mulher tudo leva consigo, carregada como uma mula, sempre acompanhando o marido. O principal utensílio é a rede, que eles mesmos chamam Ini, os lusitanos, Rede, os belgas Hangemach; vulgarmente Hamaca, na qual dormem, presas às traves numa e noutra extremidade, com auxílio dela.
Liteiras de rede
A versatilidade da rede ("servia de cadeira, escabelo, mocho para o descanso") desemboca em sua adaptação em liteiras. "As liteiras, que a dominação romana havia divulgado por toda parte, sugeriram aos portugueses e espanhóis quinhentistas adaptar a rede à função de veículo transportador. Suspensa por forte vara apoiada nas extremidades aos ombros de escravos, a rede ficou sendo um dos transportes mais cômodos e deleitosos".
Da rede à cama
Onipresente em todo o Brasil colonial, a rede encontra destino diferente, entrando em declínio, no Brasil imperial. Veja o que diz o autor: "Com o enfraquecimento do artesanato doméstico as redes diminuíram, enquanto a facilidade do fabrico de leitos e de camas-de-vento crescia com o aumento de carpinteiros atraídos pelo desenvolvimento das vilas que gravitavam ao derredor das cidades grandes, Rio de Janeiro e São Paulo. A influência das modas de França, depois de 1830, vulgarizava os leitos e era de fácil o reproche de ainda manter-se uma tradição indígena, uso de 'bárbaros' em pleno regime de 'civilização'. A rede especialmente no Sul do País, sofreu longa, diária e teimosa campanha de descrédito como elemento desmoralizador dos foros progressistas do Império. Sempre esperamos valorização do 'nacional' pela opinião estrangeira do alienígena. Se houver concordância é que estamos certos. No contrário, é tempo de 'corrigirmos' a usança, evitando o atraso, a retrogradação, a barbárie. Os nossos são padrões da 'gente de fora', embaixadores das terras sábias e dos povos cultos".
Segundo Cascudo, em torno de 1850 a rede estava em derrocada e havia acanhamento em usá-la. Ele arremata com Simão Machado: "o brasileiro é digníssimo filho do português na desconfiança dos seus próprios méritos e embevecimento pelos alheios".
Assim Cascudo relata o efeito colonizador sobre os costumes nativos em detrimento do que era "ditado pela voga europeia, pela moda, pela irresistível força sedutora da imitação".
No próximo post seguiremos com o capítulo 2 do livro Rede de Dormir. Para ver todos os posts desta série clique em Marcadores/História da Rede.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A História da Rede



Há alguns anos adquirimos em um sebo de Fortaleza o conhecido livro Rede de Dormir, do potiguar Luís da Câmara Cascudo. A obra é até hoje a mais completa e importante referência quando o assunto de interesse e pesquisa é a rede. A partir deste post começaremos a compartilhar com todos que nos acompanham os trechos mais relevantes e curiosos do livro, extraídos capítulo por capítulo. O livro que temos em mão trata-se da primeira edição, com data de 1959. Uma raridade que pode ser ainda encontrada à venda em sebos pela internet valendo em média R$ 45,00. Há também uma edição mais recente, de 2003, pela Global Editora, disponível em sites de livros custando em média R$ 32,00 reais.
A ideia do livro
No prefácio, Câmara Cascudo explica como foi instigado a escrever sobre assunto tão fora do alvo de estudiosos. Logo de início ele reproduz discurso de Cícero, jurista do Império Romano (De Nat. Deorum II), séculos atrás: "Familiarizados com os objetos vistos todos os dias não os admiramos mais e nem sonhamos pesquisar-lhes as origens".
Com pensamento semelhante, Cascudo cita o professor Bruno Schier: "... mestre de Etnografia em Viena d'Áustria, pergunta , no clássico `Construção da Civilização Popular Alemã`, se não é tempo de valorizarmos os elementos humildes e de uso cotidiano como indicadores da ciência etnográfica..."
Daí Cascudo percebe a importância de "valorizar, estudar, pesquisar as coisas que vemos, usamos, construímos, conhecemos e nunca pensamos dignas de nossa atenção e cuidado cultural". E conclui: "Por isso tentei esta viagem ao redor da rede de dormir".
A partir de hoje convidamos todos a pegar carona nessa viagem cultural.